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Inspiração: Quem decide o hotel dele é a corrida, não a empresa

 

Há quem escolha o hotel pela proximidade dos transportes, pela localização dos melhores restaurantes ou pela distância dos centros comerciais ou das ruas com as melhores lojas. David Storch escolhe o hotel só com a corrida na cabeça. Gosta de correr. Não, adora correr. Diz que é viciado em corrida.

Mas não foi sempre assim. David Storch, 42 anos, sempre fez desporto. Gostava de basquetebol, costumava jogar futebol na empresa onde trabalha, na Alemanha. Só que a vida trabalho-casa e a cerveja alemã fizeram-no engordar. Em Outubro de 2007, decidiu que queria voltar à forma física ideal. “No segundo treino quebrei o braço em 10 mil pedaços a jogar basquetebol. Num contra-ataque, travou o pé, e tal, partiu.” A Alemanha rígida de normas valeu-lhe uma receita restritiva: David teria que ficar um ano sem fazer qualquer desporto a não ser correr. Só podia correr, nada mais. A recomendação – a obrigação, melhor dito – mudou-lhe a vida.

“Lá, quando você é proibido, você não pode mesmo fazer nada por causa do seguro”. Foi operado, a queda destruiu a cartilagem e David ficou sete dias internado no hospital. “O que eu quis foi esperar que o braço ficasse bom. Mas eu não podia parar.” Esperou três meses e, em Outubro de 2007, altura em que tirou finalmente o gesso do braço, decidiu que ia começar a correr. “Sempre tentei fazer as coisas da melhor forma possível. A distância foi crescendo: corria 10Km, depois comecei a correr 16, todos os dias. Em três meses, com uma dieta que incluía um prato – do que quer que fosse ao almoço – e sopa ou salada ao jantar, perdi quase 20 Kg. Mas eu estava a sentir-me bem”, garante. “Quando eu cheguei ao peso eu falei: agora só o desporto vai me manter”.

Um dia, um colega da empresa perguntou-lhe porque não ia correr uma maratona. David respondeu de chofre, como responde habitualmente. “Não ia correr uma maratona porque não era idiota. Achava uma idiotice: para que é que eu ia correr tantos quilómetros?” Mas ficou a pensar no assunto. “Depois de pensar, pensar, decidi que podia começar a treinar para, daí a um ano, correr uma maratona. O meu único objectivo era contar aos meus netos que já tinha corrido uma maratona.”

Exactamente um ano depois de ter tirado o gesso do braço, em Outubro de 2008, David inscreveu-se na primeira maratona, em Munique, sete meses depois. Na altura corria todos os dias. “Achava que correr rápido era fazer uma maratona. Mas não era. Não era e não é. Quando cheguei à maratona, corri e pensei: nossa, isso é mesmo legal.” A sensação surgiu com a plena noção de que tinha cometido um monte de erros e de que podia fazer muito melhor. “Li todos os livros do mundo. Mas eu não me tinha preparado profissionalmente, eu tinha preparado a maratona de forma amadora. Fazia muitos quilómetros e achava que isso bastava. Mas não sabia como atrasar a produção de ácido lácteo, como aumentar a velocidade, como melhorar a oxigenação. Hoje eu sei tudo isso, na época era só correr.” Duas semanas depois correu a segunda maratona. Hoje soma 24 (Nova Iorque, Boston, Berlim e Londres, quatro das seis grandes, incluídas. Faltam Chicago e Tóquio).

“A partir do momento em que você vicia, outros objectivos começam a aparecer”. David cansa só de olhar. Mas é um cansaço bom, daqueles entusiasmados e um bocadinho invejosos. Inveja da energia, porque ele corre seis dias por semana (descansa à 4ª). Inveja da disciplina porque ele corre mesmo seis dias por semana. Inveja do entusiasmo, porque ele adora correr seis dias por semana.
Correr, mudou-lhe o corpo mas mudou-lhe sobretudo a cabeça, confessa. “Antes de correr eu era uma pessoa muito stressada. Eu aprendi que o desporto não serve só para tirar o stress mas é preventivo. Sempre fui muito explosivo e levava os problemas muito pessoalmente. Tornei-me mais tolerante comigo e com os outros. Comecei a encarar a vida de outra forma.”

Depois da segunda maratona, toda a gente na empresa sabia que David estava apaixonado. Um dia, um amigo falou-lhe de “um cara” – como diz no sotaque de português do Brasil (David é espanhol mas viveu mais de 20 anos no Brasil) – que ia correr Boston. David quis conhecê-lo. “Ele disse que era instrutor de corrida e eu fui arrogante como a maioria dos corredores: achava que corria e que corria bem. De repente estava a fazer corridas de 30Km, maratonas e tal, fiquei convencido que sabia correr mas não era verdade.”

A conversa foi-se desenvolvendo com detalhes da técnica que faz com que o corredor não force os músculos da perna na corrida, seguidos de um pensamento “Legal, mas eu não vou fazer” de David. Até que, sem nada prever, o instrutor conseguiu chamar a atenção de David com a única afirmação que fez e que parece a coisa que menos deve interessar a uma pessoa que quer correr com técnica. “Não tem nada a ver com eficiência, com velocidade, com saúde, cansaço ou perda de peso. Ele falou: “Quando eu tinha a tua idade – e eu achava que ele tinha a minha idade – eu corria maratonas de 3 horas e meia, 3h35. Aí, eu perguntei: Mas você não tem a minha idade?. Ele respondeu: Eu não, eu tenho 50 anos”, recorda David.

Foi nesse momento que ele percebeu que, aos 50, o instrutor David Saltmarsh fazia a maratona em menos de três horas. “Aí eu falei: eu quero aprender isso.” Foi inveja?, perguntamos. “Não, mas se o cara consegue correr mais rápido e ainda melhorar, como eu queria, então eu queria correr como ele. Ele parecia uns 10, 15 anos mais novo. E isso eu vejo em todo o mundo que corre. Correr rejuvenesce, as pessoas que correm parecem mais jovens.”

David combinou com o instrutor que, daí a dois meses, quando fosse para Dallas, faria um curso com ele. Depois do curso – que dura um dia e onde se aprende 80% da técnica -, começou a correr de outra maneira. “Adquirir toda a técnica da Chi running pode demorar um ano mas os conceitos principais ficam logo no primeiro dia.” David foi sendo seguido pelo instrutor David Saltmarsh, começou a usar o abdómen e não os músculos das pernas (os músculos fracos) para correr, reduziu as lesões a zero nos últimos anos, diminuiu o cansaço e passou a usar o ambiente e a força da gravidade como facilitadores da corrida. E até chegou a mostrar-lhe Paris… a correr, em troca de um treino orientado serviu de guia da capital francesa. Trinta e dois quilómetros a correr, desde a torre Eiffel até Notre Dame, passando pelo Arco do Triunfo e pelo Louvre. Sempre a correr, mesmo entre fotografias de Saltmarsh.

Depois, quando finalmente sentiu que corria bem tecnicamente, decidiu começar a ensinar tudo o que tinha aprendido. Estudou para fazer o processo de certificação – a formação demorou cerca de dois anos  – e prestou provas teóricas e práticas durante uma semana. Quando terminou a formação, começou o projecto da Correr Saudável que dá treinos e workshops de técnica de corrida em Portugal, uma disciplina desconhecida no país, e que acaba de fechar uma parceria com o Holmes Place para dar formação de corrida já a partir desde mês [peça aqui mais informações]. E não precisa de ser um profissional para treinar com este maratonista: David Storch tanto treina corredores em grande forma como gente que não corre mas que gostava de correr para perder peso, ter uma vida mais saudável ou ser simplesmente mais feliz.

“Eu não sou exemplo para ninguém mas, às vezes, acordo às 3 da manhã para correr. Quando o meu treino vai ser longo e tenho que acordas às 5h30 para ir para o trabalho, acordo às 3. Mas correr de manhã tem um problema, porque chega a tarde e eu quero correr de novo. Correr é o desporto ideal para quem viaja, mas é ou não é. Tento pegar hotéis que, se estiver chovendo muito, eu possa correr lá dentro. Com certeza: quem decide o meu hotel é a corrida, não é a empresa. Mas não sou padrão, sou meio viciado”. Ninguém tinha reparado, pois não?

 

 

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“inspiração”
Movimento pelo qual se leva o ar aos pulmões;
Ideia ou pensamento que surge de repente; estro.
Insinuação, conselho.
Coisa inspirada.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Mariana Barbosa
Jornalista

 

 

 

 

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