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as férias merecem o dinheiro extra que gastamos com elas?

Todos os verões faço a mesma pergunta: merecem as férias o dinheiro extra que gastamos com elas? A noite passada, enquanto cheirava a noite da Costa Vicentina, consegui voltar a passear com os meus pais em Vila Nova de Milfontes, como fiz durante mais de dez anos, e tive a certeza absoluta que sim.

Falo por mim e pela esmagadora das famílias portuguesas: as férias pesam no orçamento familiar, exigem um esforço logístico e monetário e nem sempre são sinónimo de descanso. Existem estratégias que minimizam o estrago – já partilhei algumas dicas que continuam a ser essenciais para mim. Este ano, por exemplo, lá estarei, no meio do Alentejo, porque o meu estado (que nem sempre é de graça) não permitirá grandes deslocações para a praia e, se é para ficar pela piscina, gastamos menos em localizações não balneares, numa casa enorme a dividir por vários agregados em valor e trabalho. Já pagámos no início do ano, felizmente.

Desculpem a poesia da conclusão mas as férias servem para construir memórias. É por isso que vale a pena aquele esforço, o dinheiro que puxamos de um mês para o outro, que poupamos para fugir à rotina durante uns dias.

Eu sei que os meus pais poupavam durante o ano para que pudéssemos passar 15 dias de férias em Vila Nova de Milfontes. Não existiam luxos e as refeições faziam-se no refeitório do colégio interno que albergava turistas durante o verão. Para a praia iam as marmitas que comprávamos no minimercado. Nesses dias, cumpríamos a “volta dos tristes” e íamos comer um gelado depois de jantar. Alguns anos depois mudámos as férias para Armação de Pera porque as opções estavam restritas aos acordos entre o emprego do meu pai e alguns alojamentos turísticos. Sei de cor os nossos dias, lembro-me das viagens pela Nacional depois de chegarmos a Troia de barco, do sabor da salada russa da minha mãe, da tranquilidade das noites em que passeávamos. De mim, sempre de mão dada ao meu pai, sorrio quando nos consigo ver a jogar à bisca na praia, horas infinitas. Até as idas ao supermercado tinham outro encanto, porque eram férias.

Agradeço à minha mãe, e tenho a certeza que agradeci ao meu pai, pelo esforço que fizeram todos os anos para que construíssemos estas memórias. Com um esforço que não ponha em causa todo o ano que está para vir, as férias merecem as despesas extra. E que sejam mesmo aproveitadas, para que as memórias sejam doces.

 

Crónica Dinheiro Vivo

Foto: Pedro Góis na Cerca do Sul

Comentários (11)

  • A vida financeira lá em casa não era muito fácil, com quatro filhos raras vezes é. Por isso não havia 15 dias, nem uma semana de férias no Algarve nem noutro sitio. Mas lembro-me que se fazia o melhor das férias. A minha mãe era mestre nisso. Levantávamo-nos cedo. Fazia-se uma cesta com sandes de paio e caixas de melão cortado aos pedaços. Rumávamos a Sesimbra porque o mar era mais calmo que o da Costa. Fazia-se praia até ao meio dia e pelo caminho compravam-se sardinhas. O meu pai assava as sardinhas num pátio fora do prédio e a minha mãe fazia a salada de tomate e pepino, com orégãos. Bem temperada de azeite e vinagre.
    Dias felizes esses. E se se gastava mais um tostão valia a pena.
    Hoje esforço-me por dar mais ao meu filho, porque posso, porque é um e não quatro.

    Desculpa o texto grande. Mas fizeste-me lembrar de tudo isto.
    Obrigada

    http://embuscadafelicidade.blogs.sapo.pt/

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    • A felicidade está nos momentos simples. Ao final do dia o importante é sentirmos que somos amados, e a Cátia e os seus irmão certamente sentiram isso.

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      • Sem dúvida.

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  • Obrigado pela partilha.

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  • Engracado o teu post, aprende-se imenso com os pais nao e mesmo? Ao contrario do resto do mundo la em casa nunca fizemos ferias e nunca fomos para fora. Para que ir para fora quando crescemos no algarve com a praia a porta? no meio das aulas ia-mos para a praia, no fds iamos dar caminhadas na praia com os meus pais (momentos que me trazem sempre um sorriso de orelha a orelha). E pelo menos 1 dia do fds iamos passear a algum lado. Percorremos a costa vincentina de ponta a ponta, subimos as “montanhas” no algarve e saltamos pelas pedrinhas do rio, fomos a ayamonte e a sevilha. E no mes de Agosto fui quase sempre para Lisboa passar o verao com o meu bisavo e com a minha tia. A primeira vez que dormimos todos juntos fora de casa (sem ser as idas a Lisboa) foi quando eu organizei a viagem de 25 anos de casados para os meus pais. Desde entao todos os anos tentamos organizar um fds prolongado assim. Olhando para esses momentos, adoro cada um! Nunca soube o q eram ferias grandes fora de casa, mas tivemos muitas escapadelas e senti que percorremos muita coisa sem dormir fora e com o que o orcamento permitia 🙂

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  • Se valem o dinheiro? Nós gastamos cada tostão sempre a pensar em férias, que por nossa vontade se tornariam eternas! Não almejo casa, carros ou roupas caras, apenas que a vida nos proporcione a oportunidade de viajar e conhecer o máximo! Ir a todos os cantos do mundo (utopia, bem sei).
    Contamos os dias até às férias e depois vimos mais cansados do que fomos, porque queremos sempre ir a mais um sítio, mas vale sempre a pena. Vamos contando as aventuras em forma de blog, na esperança de um dia dele nos tornar dependentes, até lá, vamos trabalhando, poupando e aproveitando todos os dias!
    http://www.osmeutrilhos.pt

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  • […] do Alentejo [perto de Beja] e o Brejão [já na Costa Vicentina e, na prática, já é Algarve]. foram apenas quatro noites mas a mim soube-me a muito mais do que isso. os dias bem aproveitados sabem a infinito. pediram-me dicas, aqui […]

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  • […] tinha posto esta foto na crónica sobre o dinheiro que gastamos nas férias mas decidi mudar porque queria falar apenas desta imagem. é verdade que adoro todas as fotografias que o Pedro tira [como esta e esta], a bem da verdade seria melhor dizer que adoro todas as fotos que o Pedro guarda porque aquelas que não gosto mesmo imploro-lhe que apague. estes últimos dias permitiram muitos registos. eu – mesmo que não me apeteça e me farte rapidamente – agradeço o privilégio de poder guardar estes meses. tenho duas fotografias grávida do G. e a gravidez do A. foi salva pelas fotografias do Tiago Figueiredo às 36 semanas numa tarde de praia na Comporta. quando partilhei as fotografias no Instagram algumas seguidoras explicavam que eu fico bonita nas fotos do Pedro porque é a forma como ele me vê. hormonas à parte [aquelas que me permitem gostar de lamiches] quero acreditar que é mesmo isso. […]

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  • Nós íamos do Algarve, numa carrinha Hiace com cortinas floridas que hoje seriam muito vintage, e percorremos Portugal quase inteiro em anos diversos. De manhã passava-se pela praça da terra seguíamos à procura de um sítio para fazer a assada, descansávamos à sombra das árvores, seguíamos viagem até à próxima terra onde dormíamos em pensões que o meu pai procurava porta a porta, não havia wi-fi, nem bookings online. E era tudo a custos controlados, era muito raro comermos em restaurantes. E foi tão bom !! Memórias maravilhosas que de vez em quando recordamos.

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  • […] guardo as melhores memórias das férias de verão. a minha mãe diz muitas vezes que era nesse tempo que recarregávamos as baterias como família, ou enchíamos as bolsas de oxigénio para não entrar em apneia na logística de todos os dias. […]

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  • […] guardo as melhores memórias das férias de verão. a minha mãe diz muitas vezes que era nesse tempo que recarregávamos as baterias como família, ou enchíamos as bolsas de oxigénio para não entrar em apneia na logística de todos os dias. […]

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